Uma vez recebemos uma mensagem anônima questionando para onde ia o dinheiro do Galpão - as doações, os bachadólares (uma moeda que criamos), o caixa em geral. A Ana ficou particularmente incomodada com esse questionamento, possivelmente vindo de alguém que não faz ideia do quão custoso é manter um espaço como o nosso; muito provavelmente alguém que nunca apareceu para ajudar, nunca doou e que perguntou mais por maldade ou ignorância do que por real interesse. Eu, pessoalmente, não fico com raiva. Não tenho qualquer problema em abrir nossos números e falar com total transparência sobre custos e ganhos, porque acreditamos que confiança se constrói com clareza e verdade, mesmo quando os números não são confortáveis.
Hoje, nossos gastos mensais com aluguel, IPTU, água, luz e seguro giram em torno de 4 mil reais. Só de água, pagamos cerca de 550 reais por mês, mesmo usando pouco - não podemos esquecer que o Galpão tem mais de 200 m², e isso encarece tudo. Em contrapartida, por mês, somando a venda dos convites do munch (com cerca de 60 pessoas), o bar do munch e a BaRcharia, nosso caixa (líquido) gira em torno de 2.500 reais. A conta, portanto, não fecha, certo? Dependemos da nossa festa trimestral, que gera aproximadamente 7.500 reais de caixa entre bilheteria e bar. É com esse dinheiro que conseguimos cobrir os meses deficitários e realizar uma ou outra manutenção no espaço, sempre com escolhas difíceis sobre o que dá ou não para fazer naquele momento.
Um exemplo concreto de gasto recente foi a instalação do sistema de ar-condicionado, feita para trazer mais conforto a todos que frequentam o Galpão e tornar o espaço mais seguro e acolhedor para atividades longas. Os aparelhos custaram 22.500 reais, o projeto, a instalação, a reforma elétrica, a troca de quadros e os materiais somaram 12.000 reais, e as cortinas de ar e outros aparatos para tornar o espaço mais hermético custaram 1.500 reais. No total, foram 36 mil reais investidos. Esse valor não é uma “bucha” exclusiva da Ana, que representa o Galpão, mas deve ser entendido como uma responsabilidade compartilhada pelas mais de 200 pessoas que compõem essa comunidade, porque esse conforto, esse cuidado e essa estrutura existem para todos. O financiamento foi necessário e agora precisamos, juntos, fazer esse dinheiro surgir para pagar essa dívida.
Para isso, precisamos movimentar o Galpão. Precisamos de mais doações, de mais festas, de mais aulas, workshops e atividades semanais, de qualquer tema. Precisamos, acima de tudo, que cada pessoa que se beneficia do espaço se reconheça como parte ativa dessa construção. Sabemos que nem todo mundo vai abrir a carteira para doar dinheiro, mas há quem participe de todos os eventos, quem possa doar objetos, quem possa oferecer habilidades, conhecimento ou aulas. Todas essas formas de contribuição são válidas e importantes. Estamos abertos a tudo o que for proposto, porque manter o Galpão vivo exige criatividade, presença e envolvimento constante.
Como muitos já sugeriram, criamos um link para a vakinha (só nos pedir que enviamos o link ou mesmo nosza chave pix - pelo link, dá para doar pelo cartão de crédito) ou, sendo bem diretos, para tirar nossos nomes do Serasa. Cada bachacoin da vakinha custa 5 reais, e precisamos “vender” 7.200 bachacoins para quitar a dívida. Pode parecer um número surreal, mas, quando pensamos que cada gesto individual se soma a outro, ele se torna possível. Se cada membro conseguir mobilizar o equivalente a 36 rifas, por exemplo, é um número alto, mas plenamente alcançável quando feito em conjunto. A cada evento, aula, exposição ou novo encontro que realizarmos, vamos atualizar quantos bachacoins entraram no caixa e quanto ainda falta, porque acreditamos que acompanhar esse processo também fortalece o sentimento de pertencimento.
Tudo conta. Todo pequeno esforço importa. Cinco reais importam. Compartilhar o link importa. Convidar alguém para um evento importa. Vale também deixar explícito que, somando todas as doações em dinheiro desde o início do Galpão, não chegamos a 3 mil reais no total. Recebemos 20 reais aqui, 5 reais ali - e somos gratos por cada bachacoin -, mas doações realmente maiores (de bachadólares, 400 reais) aconteceram apenas três ou quatro vezes. Isso não é uma crítica, é um retrato honesto da realidade que enfrentamos.
Transparência é isso. O Galpão só existe porque é coletivo, porque muita gente acredita nele, frequenta, constrói e cuida. E ele só vai continuar existindo se esse cuidado for, cada vez mais, compartilhado.

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